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O Papel da Fisioterapia no Tratamento e Pós-Cirurgia
A coluna vertebral é essencialmente dividida em 5 regiões anatómicas: cervical, dorsal, lombar, sacro e cóccix. Quanto à região lombar, esta é constituída por 5 vértebras (L1 a L5) e respetivos discos intervertebrais, apresentando uma curvatura fisiológica denominada lordose lombar (Al Qaraghli et al., 2023).
Em relação aos discos intervertebrais, estes são estruturas gelatinosa compostas por um núcleo pulposo e um anel fibroso circunferencial (Zhang et al., 2023). O núcleo pulposo é composto por aproximadamente 80% de água, sendo o restante constituído por colagénio tipo II e proteoglicanos, e esta composição é em grande parte responsável pela compressibilidade do disco (Al Qaraghli et al., 2023). Por sua vez, o anel fibroso é composto por colagénio tipo I, com menor teor de água, e é o principal responsável pela resistência à tração do disco (Zhang et al., 2023) Em conjunto, esta estrutura desempenha um papel fundamental na absorção e distribuição de cargas, bem como na mobilidade da coluna vertebral (Zhang et al., 2023).
A hérnia discal é descrita como o deslocamento do núcleo pulposo através do anel fibroso para além dos limites do espaço do disco intervertebral, geralmente para trás (protrusão), causando estreitamento do canal central ou dos neuroforames, levando à compressão mecânica do saco dural ou das raízes nervosas associadas(Yoon & Koch, 2021; Zhang et al., 2023). Além da compressão física, o contacto do núcleo pulposo com os nervos pode desencadear uma cascata química inflamatória que aumenta a sensibilização e a dor na área afetada (Yoon & Koch, 2021).

a) Fatores de Risco
A hérnia discal lombar é, na maioria das vezes, idiopática, ou seja, não tem uma causa específica conhecida, mas pode surgir após traumatismos ou, mais frequentemente, como consequência da degeneração fisiológica do disco devido ao processo natural de envelhecimento (Yoon & Koch, 2021; Zhang et al., 2023) Esta degeneração natural ocorre devido à redução da produção de proteoglicanos, o que leva à desidratação e colapso do disco, aumentando a tensão no anel fibroso, resultando em ruturas e fissuras e, consequentemente, facilitando a herniação do núcleo pulposo (Al Qaraghli et al., 2023).
Outros fatores de risco que podem predispor os indivíduos ao desenvolvimento da hérnia discal incluem obesidade, sedentarismo, esforço repetitivo e excessivo para o qual o corpo não está preparado, tabagismo, diabetes, distúrbios do tecido conjuntivo e predisposição genética (Jin et al., 2025; Yoon & Koch, 2021; Zhang et al., 2023).
Recentemente, um estudo focado na população portuguesa destaca ainda que a prevalência de problemas crónicos nas costas, incluindo a hérnia, é influenciada por determinantes sociais de saúde, como baixos níveis de educação, instabilidade financeira e fatores psicossociais, como a insatisfação com o percurso de vida e distúrbios do sono (Duarte et al., 2024).
b) Incidência e sintomatologia
A hérnia de disco lombar é uma das causas mais comuns de dor lombar (Zhang et al., 2023), com uma incidência estimada de 5 a 20 casos por 1000 adultos por ano, afetando cerca de 1 a 3% da população anualmente, sobretudo entre os 30 a 50 anos de idade (2), com maior prevalência no sexo masculino. Anatomicamente, aproximadamente 95% das hérnias discais lombares ocorrem nos níveis L4-L5 e L5-S1 (Al Qaraghli et al., 2023), frequentemente com envolvimento do nervo ciático. Assim, constitui uma das principais causas de dor ciática, que afeta 1 a 5% da população anualmente manifestando-se tipicamente por sintomas nas pernas, como fraqueza e parestesias descritas como formigueiros, choques ou outros (Yoon & Koch, 2021; Zhang et al., 2023).
Em casos severos, pode surgir défices motores e sensoriais como na síndrome da cauda equina, caracterizada por retenção urinária, incontinência urinária ou fecal, anestesia em sela e disfunção sexual. Esta, trata-se de uma emergência médica que exige encaminhamento imediato (Zhang et al., 2023).
Importa salientar que uma proporção significativa de hérnias discais são assintomáticas. Estudos demonstram a presença de protrusões discais em 30% dos indivíduos na faixa etária dos 20 anos e até 84% em indivíduos com idades compreendidas entre os 80 e 89 anos (Zhang et al., 2023), estimando-se que 20–40% da população adulta possa apresentar hérnia discal sem dor associada.
c) Diagnóstico
A apresentação clínica varia conforme a localização da hérnia e grau de compressão das estruturas neurais e, para um diagnóstico preciso, é realizado um exame física detalhado com auxílio de exames de imagens, sendo a Ressonância Magnética (RM) considerada o gold standard por permitir visualizar claramente o tamanho, a localização e o grau de compressão (Zhang et al., 2023).
O tratamento padrão de primeira linha, quando não existem défices neurológicos graves ou emergência médica, geralmente inclui fisioterapia e medicação (Al Qaraghli et al., 2023), uma vez que, até 85% das pessoas sentiram alívio dos sintomas dentro de 8 a 12 semanas com o tratamento conservador e 63% experienciaram regressão dos sintomas (Zhang et al., 2023).
A fisioterapia demonstra-se essencial e deve ser realizado o encaminhamento após a primeira consulta para iniciar exercícios de estabilização do core e alívio da compressão das raízes nervosas através de exercícios específicos. O movimento é extremamente incentivado, ao que o repouso prolongado é geralmente desaconselhado (Jin et al., 2025; Zhang et al., 2023).
Em termos de medicação, os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) são os mais recomendados devido aos seus efeitos anti-inflamatórios e analgésicos, podendo também ser prescritos relaxantes musculares quando existe dor lombar predominante ou espasmos musculares. Em casos de dor radicular aguda, corticoides durante um curto período (5-14 dias) podem ser eficazes no alívio sintomático. Adicionalmente, caso as medidas conservadoras falharem, podem ser consideradas injeções epidurais de esteroides para alívio da dor (Zhang et al., 2023).
Nos casos em que o tratamento conservador falha e que os sintomas persistem ou agravam, ou situações de emergência, a intervenção cirúrgica pode ser indicada (Yoon & Koch, 2021; Zhang et al., 2023). A idade média dos doentes submetidos a tratamento cirúrgico situa-se em torno dos 42 anos (Zhang et al., 2023).
Relativamente às intervenções cirúrgicas, existem diferentes técnicas como:
Papel da Fisioterapia no pós-operatório
A fisioterapia desempenha um papel fundamental na recuperação da funcionalidade, procurando otimizar os resultados cirúrgicos, acelerar o retorno às atividades da vida diária e melhorar a qualidade de vida (G. Brotis et al., 2025). É esperado que se inicie um programa de reabilitação individual a partir das 3 semanas pós-cirurgia, idealmente.
No período pós-operatório imediato, os principais objetivos passam pela educação do doente, gestão da dor e promoção da mobilização precoce de forma progressiva e controlada. Assim, são transmitidas indicações para mobilização dentro das primeiras 24h após a cirurgia, algo que demonstra benefícios a nível da redução do tempo de internamento hospitalar e acelera o retorno ao trabalho, sem aumentar a dor ou complicações. Adicionalmente, recomenda-se que a maioria das atividades da vida diária seja retomada nas 2 semanas seguintes à discectomia (G. Brotis et al., 2025). As caminhadas leves e progressivas são recomendadas e devem ser evitadas as posturas mantidas durante longos períodos.
Numa fase intermédia (2 a 6 semanas pos-op), a intervenção da fisioterapia foca-se na recuperação da mobilidade, melhoria da flexibilidade e fortalecimento muscular, com especial ênfase no treino do core para otimização da estabilização da coluna (G. Brotis et al., 2025). Todos os exercícios são progressivamente introduzidos, respeitando o processo de cicatrização e a tolerância individual do utente.
É importante salientar que cada processo é individual pelo que, os programas introduzidos na fisioterapia deverão ser personalizados consoante a intervenção, sintomas e realidade da pessoa.
Da autoria da nossa fisioetrapeuta Beatriz Pereira
Referências:
Al Qaraghli, M. I., & De Jesus, O. (2023). Lumbar disc herniation. PubMed; StatPearls Publishing.
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK560878/
Duarte, S. T., Alves, J., Cruz, E. B., Heleno, B., & Aguiar, P. (2024). Low Back Pain Disparities in Portugal: A Population-Based Study Analysing the Role of Social Determinants of Health. Musculoskeletal Care, 22(4). https://doi.org/10.1002/msc.70025
G. Brotis, A., Kalogeras, A., Spiliotopoulos, T., N. Fountas, K., & K.Demetriades, A. (2025).
Physical therapies after surgery for lumbar disc herniation.
Jin, H., Lopez, A. M., Romero, F. G., Hoang, R., Ramesh, A., & Bow, H. C. (2025). A Systematic Review of Treatment Guidelines for Lumbar Disc Herniation. In Neurospine (Vol. 22, Number 2, pp. 389–402). Korean Spinal Neurosurgery Society. https://doi.org/10.14245/ns.2550398.199
Yoon, W. W., & Koch, J. (2021). Herniated discs: when is surgery necessary? EFORT Open Reviews, 6(6), 526–530. https://doi.org/10.1302/2058-5241.6.210020
Zhang, A. S., Xu, A., Ansari, K., Hardacker, K., Anderson, G., Alsoof, D., & Daniels, A. H. (2023). Lumbar Disc Herniation: Diagnosis and Management. In American Journal of Medicine (Vol. 136, Number 7, pp. 645–651). Elsevier Inc. https://doi.org/10.1016/j.amjmed.2023.03.024